A sabedoria dos mercados financeiros

O economista e professor da Faculdade de Economia e Administração da USP João Sayad faz uma análise do comportamento do mercado financeiro

O general grita com o coronel: “abrir fogo!”. O grito atravessa os ouvidos do major, do capitão, do tenente, do sargento até chegar ao soldado atolado na trincheira. O exército é uma organização centralizada, hierárquica e autoritária. Soldados são proibidos de ter “uma boa ideia”. São reconhecidas apenas duas virtudes: coragem e obediência.

Na grande empresa tradicional, a organização é semelhante: a criatividade do funcionário da linha de produção dificilmente chega ao comando da empresa. A empresa é uma ilha uma organização burocrática e centralizada, cercada de mercados por todos os lados.

O Waze, o aplicativo que usamos para evitar congestionamentos, é uma organização em rede. Muitos motoristas informam muitos motoristas como está o trânsito na rota de cada um. Com estas informações, indica alternativas para evitar engarrafamentos. Funciona bem se for uma informação privilegiada. Se todos usassem o Waze, não funcionaria tão bem. O congestionamento se transferiria para a rota escolhida pelo Waze. Quanto maior o sucesso do Waze, mais congestionada as rotas alternativas que indica.

O mercado, se funcionar como Adam Smith imaginou, é diferente dos três modelos. Não há chefia. Cada empresa analisa apenas o ambiente próximo preço do produto, preço do concorrente, custos dos inputs e determina quanto e o que produzir. Cada um procura obter o máximo para si e juntos acabam vendendo ao menor preço e produzindo ao menor custo. A Mão Invisível emerge como “espírito” que transforma o egoísmo em altruísmo inconsciente.

Formigueiros, cardumes, enxames de insetos, bandos de pássaros, manadas de antílopes funcionam como o mercado do Adam Smith. O peixe do cardume segue uma regra informada apenas por variáveis locais: manter uma determinada distância dos colegas acima, dos colegas abaixo e ficar paralelo às listas do corpo dos peixes ao lado. Com regras simples, sem Waze, sem general, sem planejamento estratégico, nadam harmoniosamente e evitam predadores.

Na costa do Japão, um formigueiro ocupa área com 100 quilômetros de diâmetro. Formigas rainhas não reinam, são apenas reprodutoras protegidas num bunker. Outras formigas trazem alimentos, outras defendem o formigueiro, outras enterram os mortos. Há uma divisão de tarefas, mas nenhuma chefia. Constituem organizações complexas, com alta taxa de sobrevivência, mais numerosas e mais antigas que a espécie humana.

O fenômeno é chamado de “emergência”. Um comportamento complexo “emerge” das regras simples seguidas por cada indivíduo do grupo como no caso da mão invisível. Contraria a segunda lei da termodinâmica: um conjunto simples de regras dá origem a um sistema complexo.

Até a vida mental pode ser uma “emergência”. Neurônios que transmitem sinais discretos (um ou zero, dispara ou não dispara) para outros neurônios e para neurotransmissores podem ser a explicação para o que chamamos de vida mental.

Estes comportamentos complexos dos coletivos de animais dependem de que nenhum indivíduo tenha consciência do resultado do comportamento coletivo. O rebanho de zebras que sobrevive aos leões é bem aventurado porque as zebras são pobres de espírito.

Antes da macroeconomia e do crescimento dos mercados financeiros, cada empresa ou cada consumidor decidia como os peixes de Santo Antônio ou as empresas de Adam Smith. Enxergava apenas os arredores. Com a globalização, o mundo passou a ser comandado pelos mercados financeiros tornou-se um mundo de zebras e peixes macroeconômicos.

Para os economistas das expectativas racionais, esta consciência torna os mercados eficientes. O perfeito conhecimento de todos sobre tudo leva os preços, as taxas de juros e as taxas cambiais exatamente para o valor certo e de equilíbrio. Supõem que cada zebra trabalhe com expectativas baseadas no mesmo modelo que eles usam teoria quantitativa da moeda e pleno emprego. Banco Central e a política fiscal só atrapalham.

Para os keynesianos, os atores dos mercados financeiros também decidem em função de expectativas, mas expectativas baseadas nas expectativas dos outros um processo de adivinhação de terceiro grau. Compro dólares porque acho que todos comprarão dólares. E se for esperto, vendo antes de os outros perceberem que os dólares estão caros demais.
A política econômica se torna um jogo entre autoridades (macroeconomistas burocráticos) e os mercados financeiros (macroeconomistas especuladores). As regras do jogo são as crenças dos mercados financeiros, corretas ou falsas. Aliás, não há crenças verdadeiras ou falsas. Há crenças hegemônicas e outras crenças.

Agentes financeiros apostam não somente no sucesso de novos investimentos (OGX, Facebook) como também em macroeconomia. Quanto cresceu a oferta de meios de pagamentos? Quanto é o déficit público? O que acontecerá com a taxa de câmbio da libra em 1992, pensou Soros, já que o desemprego é alto e os juros não podem aumentar? Qual será a inflação? Cada banco, corretora ou dealer passou a se comportar como peixes preocupados com o todo.

Agricultores, industriais e trabalhadores continuaram limitados pela realidade que os cerca. Há uma nostalgia de fundamentos que voam para longe por longos períodos de tempo. O mundo é rico e livre o suficiente para viver à base de expectativas. Já os ianomanis vivem da mão para boca, sem expectativas. A sobrevivência gruda os ianomanis no real pescar o peixe de hoje, dançar para que a chuva favoreça a roça de mandioca.

No mundo próspero do dinheiro, os fundamentos só aparecem no longo prazo quando as zebrinhas mais frágeis, agricultores, industriais e trabalhadores já estão mortas, como diria Keynes, comidas pelos leões.

Perdemos a inocência microeconômica: emprego e estabilidade dependem agora da estratégia de jogadores (bancos centrais e mercados financeiros) que erraram em 1929, em 1997 e em 2007 e que errarão de novo. A prosperidade nos expulsou do paraíso. A sabedoria estava na ignorância dos peixes.

João Sayad é professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e escreve mensalmente neste espaço. joaosayad@gmail.com

Fonte: Valor Econômico (http://www.valor.com.br/opiniao/4016010/sabedoria-dos-mercados-financeiros)