C&T – Brasil terá reator nuclear multipropósito

Em 6 de maio, foi assinado contrato entre a argentina Invap e a Redetec (Rede de Tecnologia e Inovação do Rio de Janeiro) para realização do projeto básico dos itens e sistemas nucleares do RMB (reator multipropósito brasileiro). A parceira brasileira é responsável pela gestão dos recursos disponibilizados mediante convênio entre essa rede, a Agência Brasileira de Inovação e a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear). Segundo a assessoria de comunicação dessa última, no valor de R$ 24,7 milhões e com prazo de execução de 24 meses, o acordo para elaboração desse projeto básico se insere entre aqueles de cooperação bilateral entre Brasil e Argentina para “usos pacíficos da energia nuclear” e na declaração conjunta firmada em fevereiro de 2008 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e por Cristina Kirchner, que se mantém no comando do país vizinho. Ainda conforme a assessoria, o custo total do RMB está estimado em US$ 500 milhões e o prazo de conclusão é 2018. Além da construção e montagem, inclui o projeto básico dos prédios, infraestrutura e sistemas convencionais, que vem sendo desenvolvido pela empresa nacional Intertechne, “contratada em janeiro de 2012 com recursos do convênio”. De acordo com a informação oficial, a iniciativa se insere no Plano Plurianual do Governo Federal 2012-2015, com previsão orçamentária para o período da ordem de R$ 400 milhões.

Ainda conforme a assessoria da CNEN, o RMB foi estabelecido como meta do PACTI/MCT (Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação desse Ministério) e contará com uma rede de instituições parceiras, federais e paulistas, incluindo o Centro Tecnológico da Marinha nesse estado. Será instalado em área contígua ao Centro Experimental de Aramar, em Iperó, interior de São Paulo. “Isso dará uma magnitude ao sítio como o principal polo de tecnologia nuclear do País, pois terá dois reatores (de pesquisa e de teste – esse último junto ao Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica, também em construção no local, pela Marinha do Brasil) e toda uma importante infraestrutura laboratorial de tecnologia nuclear.” Devido à área disponível, um terreno de 1,2 milhão de metros quadrados, também segundo a assessoria, “o RMB poderá se tornar um grande centro de pesquisa tecnológica, a exemplo do que ocorreu com o reator IEA-R1, construído em 1957 (situado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, em São Paulo)”.

Aplicações diversas

À comunidade científica brasileira, o reator disponibilizará laboratório nacional de utilização de feixes de nêutrons complementar ao de luz síncroton – e por ele operado. Assim, auxiliará nas pesquisas e desenvolvimento de “nanotecnologia, biologia estrutural, novos materiais etc.”. Além disso, permitirá aplicações na saúde, indústria, meio ambiente e agricultura. “Com o RMB, o País está a caminho de se tornar autossuficiente na produção de radioisótopos e radiofármacos, substâncias essenciais na medicina nuclear, especialidade que hoje possibilita as maiores chances de diagnóstico preciso e tratamento de doenças como o câncer, problemas cardíacos, avaliação de atividades cerebrais, entre outras.”

Segundo a assessoria da CNEN, o Brasil tem hoje quatro reatores de pesquisa em funcionamento. “A produção de radioisótopos ocorre principalmente no IEA-R1, que, porém, não tem capacidade de produzir o molibdênio 99, que dá origem ao radiofármaco tecnécio 99m, utilizado em mais de 80% dos 1,5 milhão de procedimentos de medicina nuclear realizados anualmente no País”, informa. Até agora, a CNEN importa o molibdênio. Uma crise mundial no abastecimento em 2009 levou o Brasil a refletir sobre a necessidade de se tornar independente. Considerado pelo governo como projeto estruturante ao Programa Nuclear Brasileiro, como aponta a assessoria, o RMB está sendo projetado para produzir “no mínimo mil curies por semana de molibdênio. Isso representa 2,5 vezes a quantidade importada atualmente”.

À indústria, em especial da construção civil, a produção de radioisótopos servirá sobretudo à gamagrafia (radiografia de peças metálicas para controle de qualidade, proporcionando verificação de defeitos e rachaduras). O reator auxiliará também a realização de pesquisas nas áreas de meio ambiente e agricultura, bem como testes de irradiação de materiais e combustíveis nucleares. Por Soraya Misleh

Fonte: Jornal Engenheiro, da FNE, Edição 133/JUN/2013