É preciso garantir permanência na universidade

Debater os caminhos da educação superior no País foi o objetivo de Amaro Henrique Pessoa Lins, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e ex-secretário de Educação Superior do Brasil, na Conferência “O papel das Ifes (Instituições Federais de Ensino Superior) na educação superior no Brasil”. O evento realizou-se no dia 25 de julho, como parte programação da 65ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no Recife, capital de Pernambuco.

Para melhorar a qualidade do ensino superior, o professor Lins revela seis desafios: expansão da educação superior com políticas de desenvolvimento de forma mais articulada; acesso e permanência dos alunos nas universidades; melhoria contínua da qualidade; pesquisa e inovação; internacionalização do ensino e o aperfeiçoamento da gestão. “É preciso dar atenção à formação dos professores e também do quadro técnico das universidades. E para quem é gestor em educação, precisamos pensar num grande programa de formação, até para a escola básica”, propõe.

De acordo com Lins, não é possível discutir educação superior sem falar em educação básica. Dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, mostram que houve avanço. No item creche, o número de vagas passou de 9,4 em 2000 para 23,6 em 2010. Mas, ele enfatiza que há um grave problema na distribuição dessas vagas. “Precisamos ampliar a oferta e diminuir o fosso entre o atendimento a ricos e pobres. Esse é um esforço que deve ser feito para resolver a questão da injustiça social no País”, afirmou.

O professor apresentou dados que contrariam o pensamento de que nas universidades públicas a maioria dos estudantes é de classes altas. “O perfil dos alunos nas universidades federais hoje registra, por exemplo, no Nordeste, 52,02 de alunos das classes C, D e E. Aqui mesmo na UFPE esse percentual chega a 60%.”

Segundo ele, isso é resultado de uma melhoria na política de acesso às instituições de ensino superior. Porém, alerta para a importância de se criar e manter programas que garantam a permanência desses alunos nas universidades. “Não basta ter acesso, é preciso cuidar e acompanhar esses alunos das classes C, D e E, bem como aqueles que entram pelas cotas, para que eles cheguem ao final do curso e se formem. Se isso não for resolvido, não vamos avançar”, alertou.

Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) de 2011 mostram que há no Brasil 2.365 instituições de graduação superior, das quais 2.081 são privadas e 284 são públicas. “Já ultrapassamos a marca de 1 milhão de alunos nas universidades federais e 100 mil professores. Esse processo continua em expansão”, revelou Lins.

Mesmo diante de números expressivos, o ex-secretário demonstrou também preocupação com relação à distribuição dos alunos do ensino superior por área. “Tecnologia, saúde e agronomia, por exemplo, têm percentuais muito baixos se comparados aos de outros países. Como vamos desenvolver o País que tem uma demanda futura de infraestrutura enorme sem formarmos engenheiros agora?”, questionou.

Ensino médio: tragédia nacional

Com mais de 50% dos jovens fora da escola, o professor aponta o ensino médio como a grande tragédia nacional. “Dos jovens que abandonam a escola, a maioria não trabalha. Ficam abandonados muitas vezes reforçando os índices de criminalidade no País”, disse. Ele reitera que esse quadro é resultado da injustiça social, que vem desde a creche e se propaga pelo ensino médio.

O analfabetismo foi outro ponto apresentado por Lins a ser resolvido no País. A legislação vigente determina que toda criança até sete anos esteja plenamente alfabetizada, mas os números mostram que isso não está sendo alcançado. “Na Região Sudeste, o índice de crianças analfabetas de até oito anos é de 8%, enquanto no Norte e Nordeste, está em torno de 30%. É uma calamidade”, classificou.

Com informações de reportagem de Edna Ferreira/Jornal da Ciência