Estimular o gosto pela ciência na infância

Para que mais jovens optem pela engenharia, é fundamental que esse interesse seja despertado ainda no ensino fundamental. Sob esse olhar, o engenheiro civil Claudionor Rodrigues de Assis idealizou há dez anos o Projeto Experimentário, feira itinerante de ciências que abrange no total 1.300 experimentos. Através deles e da devida orientação de professores da rede pública capacitados pelo projeto, princípios da ciência, biologia, física, matemática são transmitidos ao público infantil. Confeccionados de maneira simples, em materiais acessíveis, a maioria artesanalmente, permitem a reprodução pelos visitantes interessados em outros ambientes. O Projeto Experimentário funciona sob essa lógica, como afirmou Assis, não sob a ideia de uma feira cujo conteúdo é propriedade de alguém.

A iniciativa vai ao encontro do que propugna a FNE e é complementar ao seu esforço por garantir que mais estudantes escolham a carreira – expresso no vídeo que tem exibido a alunos do segundo grau, intitulado “Mais engenheiros para construir o Brasil” (disponível em http://migre.me/gtBHW). Conforme demonstra essa apresentação, alunos que gostam de entender o funcionamento das coisas e têm afinidade com física, matemática e química já possuem um bom perfil para o ofício.

A exposição

A feira itinerante já foi vista, conforme Assis, em cerca de 50 cidades do País, “de Cuiabá (MT) para baixo”. A reportagem da FNE visitou a instalação na cidade de Monte Mor, na Região Metropolitana de Campinas, interior de São Paulo. Montada entre 1º e 27 de outubro último em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, Esporte, Cultura e Turismo no Ginásio Poliesportivo Baía Assis, nessa versão, contava 440 dos 1.300 experimentos. Entre esses, um pequeno e estreito retângulo em cujo piso há bolinhas de gude, no qual as crianças tentam dar passos. “Em 30 segundos, têm a noção de que é preciso atrito para caminhar”, explica o engenheiro. Uma forma lúdica e pedagógica de passar conceitos que, na teoria, parecem complexos demais não só para esse público, mas para os de faixas etárias superiores. Na sua opinião, isso acontece porque, em geral, devido a uma deficiência nas faculdades de pedagogia, os professores “não sabem, por exemplo, ensinar matemática, que é muito simples”.

Ainda em exposição, a história e o princípio científico do monjolo chinês, com uma réplica em escala real, bem como do funcionamento das roldanas (que permitem a transferência de força e movimento, portanto, divisão do peso de uma carga). Outra experiência visa ensinar ao visitante o que é energia cinética e potencial: três pequenos escorregadores com curvaturas distintas em que se lançam bolinhas para verificar qual chega primeiro. “É uma invenção de Newton (Isaac) de 1796.” Tudo explicado por Assis e pelos professores em linguagem simples.

A feira também apresenta um experimento denominado “pêndulos de Newton”. São cinco pequenas bolas de metal penduradas por cordas. Se o aluno bater, por exemplo, a primeira na segunda, o movimento se repetirá entre as duas últimas. A proposta é transmitir a noção de que “a energia se transforma, e a importância de conservá-la”. Na exposição, é possível encontrar ainda uma sequência de experimentos com espelhos, para explicar como se dá o reflexo da imagem, conforme sua colocação (côncava, sobreposta etc.). E diversas colmeias de abelhas em distintas formas geométricas procuram mostrar, conforme descrito no Experimentário, que as em formato sextavado permitem guardar um litro de mel; as quadrangulares, 0,93 litros; as cilíndricas, 0,89 litros; e as triangulares, 0,82 litros. A intenção é que as crianças tenham a noção de cálculo diferencial integral, diz Assis. Já uma mesa de pregos, dessas que se costuma ver nos filmes em que um faquir deita-se sobre e não se machuca, indica o “princípio da divisão”. “Um prego fura, vários juntos, não”, explica o engenheiro. Cubos em diferentes materiais – chumbo, cortiça, ferro, ouro – também integram o rol de experimentos, com o objetivo de ensinar densidade às crianças.

O princípio do cinema; uma constelação do Hemisfério Sul vista com óculos em terceira dimensão (base da astronomia); uma bicicleta que a criança pode pedalar e, assim, gerar energia elétrica; uma grande bola de metal muito procurada, porque deixa os visitantes com “cabelo em pé” ao simples toque; uma casa inclinada que mostra que tudo “depende do ponto de observação”; um boneco do cientista Albert Einstein sobre uma bicicleta, com uma descrição sobre quem foi essa personalidade; uma réplica da lâmpada de Thomas Edison; um minigerador de energia com acionamento manual; e uma série de objetos antigos (telégrafos, telefones, televisão, rádio, bicicletas, rocas) através dos quais busca-se mostrar o avanço científico e tecnológico ao longo dos tempos estão entre as atrações. “O início de tudo está aqui”, disse Assis, apontando para a área da feira em que se contava a história da evolução humana, desde o big bang (explosão) há 13,7 bilhões de anos, que daria origem ao universo, até o surgimento do homo sapiens (homem).

O Projeto Experimentário deve seguir por outras cidades do interior de São Paulo, ainda a serem definidas. A feira custa ao município entre R$ 100 mil e R$ 200 mil e normalmente abre todos os dias da semana, das 8h às 20h. A entrada é franca. Também é dada consultoria a municípios de todo o País que queiram montar sua própria estação ciência.
Mais informações no site http://experimentario.wix.com/projeto. (Por Soraya Misleh)

Fonte: Federação Nacional dos Engenheiros (FNE)