Grécia, bom senso ou abismo

“Austeridade levou os gregos à beira do precipício; no domingo, eles votaram por dar um passo à frente” – leia artigo de Clóvis Rossi para o jornal A Folha de S. Paulo

A melhor explicação para o voto "não" dos gregos ao acordo com os credores, que implicaria dose adicional de austeridade, é dada por Guillaume Duval, redator-chefe de "Alternatives Economiques", instigante publicação francesa: "O que emperrou fundamentalmente a situação na Grécia é que seus credores demandavam ao país duas coisas contraditórias: continuar a fazer ajustes, reduzindo os custos [de seus salários, por exemplo], e ao mesmo tempo pagar a dívida".

Não funciona, do que dá prova a própria Grécia: anos de ajuste não evitaram que a dívida pública passasse de 113% do PIB em 2008, quando se iniciou a crise mundial que logo engoliria o país, para 177% agora.

No percurso, a pobreza foi de menos de 20% para os atuais 23% e o desemprego pulou de 8% para 25,6%.

O que o eleitorado grego decidiu neste domingo (5) é que não quer continuar a fazer ajustes (leia-se: empobrecer mais) e, ao mesmo tempo, pagar a dívida, que, hoje, até o Fundo Monetário Internacional reconhece que é impagável.

O problema é que o governo de Alexis Tsipras exagerou na inflexibilidade e conseguiu, nos últimos 15 dias, piorar o que já era muito ruim.
A introdução de um "corralito" é uma tragédia assim descrita pelo economista José Carlos Díez para "El País": "Um ‘corralito’ é como apagar a luz de toda a economia. Em poucos dias não poderão garantir os € 60 [cerca de R$ 208] por cidadão/dia [limite de saques vigente]. Mas o mais grave é o controle de capitais para pagamentos ao exterior. A Grécia é uma economia dependente das importações e, em pou¬co tempo, não haverá carne, gasolina e medicamentos básicos como antibióticos".

Evitar esse cenário apocalíptico não depende do governo, posto que este não tem recursos para abastecer os bancos e conseguir levantar o "corralito".

Os bancos têm apenas € 1 bilhão nos cofres, o que dá € 90 para cada um dos cerca de 11 milhões de gregos. Se todos eles sacarem nesta segunda-feira (6) o limite a que têm direito, o dinheiro acaba hoje mesmo.

Piora as coisas saber que as autoridades europeias em geral decretaram que o premiê Tsipras é inconfiável para qualquer nova negociação. Como ele recebeu o endosso do eleitorado, o divórcio com a Europa estende-se para o conjunto do país.

A Europa não quer permitir que o desafio à ortodoxia prevaleça, o que poderia levar outros eleitorados a dar o poder a partidos como o Syriza, uma coligação de esquerda radical. O "não", portanto, pode ser uma vitória de Tsipras, mas uma derrota para a Grécia, se a Europa decidir sufocá-la para sufocar o seu líder.

A única chance é a de que prevaleça, entre os europeus, a opinião recentemente exposta pelo premiê italiano Matteo Renzi: "A Europa do rigor orçamentário não funcionou, porque os cortes indiscriminados do investimento cortam o futuro e o crescimento".
Não é de admirar, portanto, que o eleitorado grego tenha concordado com o bom senso de Renzi.

Pena que bom senso é tudo o que tem faltado na novela Grécia x Europa.