O ZIKA VÍRUS do juro real

Leia artigo do economista e diretor geral do ISITEC , Saulo Krichanã, sobre a perspectiva de retomada de investimentos no Brasil

Agora (ou mais tarde, em 2018) a questão de retomar investimentos para sair do ciclo contracionista permanecerá inalterada.
Por uma simples razão: está doente – fortemente doente – a forma de pensar uma sociedade que se torna leniente com o pagamento de quase 10% do PIB (ou cerca de R% 500 bilhões) só de juros da divida pública interna e, pior, não vê outra saída (sic) a não ser aumentar ainda mais os juros reais da economia, assim que se resolver o impasse político que acabou com 2015 e vai também fadar ao fracasso, 2016, 2017 e…

Juros ativos reais de operações de crédito (para desconto de recebíveis, crédito pessoal, cartão de crédito, ou, seja lá para o que for) acima de 200% ao ano? ´`E brincadeira isso? É pegadinha que não comove (sic) nem mesmo a autoridade (?) monetária, assim como a nenhum rábula de quinta categoria que pense em defender a sociedade desta financeirização criminosa da economia?
Taxas de juros ativas (para aplicação) neste patamar só seriam compatíveis se houvesse hiperinflação e as taxas passivas (de captação) tivessem que refletir um prêmio de risco altíssimo para desentesourar a liquidez enquistada na economia!

Dizer, por outro lado, que a diferença de ganhos de deve a custo e despesa operacional e cunha fiscal…sem gargalhar…e sem corar?
Como pode em sã consciência um juiz (!?!) aceitar uma ação de cobrança contra um tomador de crédito que não consegue (sic) pagar uma reles PMT concernente a uma operação de crédito que tem uma “tirzinha” (ou uma TIR pequenininha) de uns 300% ao ano (com todas as cominações de multas, atrasos e outras obscenidades, aí incluídas as cunhas fiscais igualmente indecorosas, se a TIRZINHAZINHA do salário nominal dele mal dá para encarar a variação dos preços nos sacolões, no final de semana?

E o tal do Banco Central? Os presidentes Pilatos (como deveriam ser chamados todos os presidentes que são estupidamente coniventes com esta situação) continuarão lavando as sua mãos limpíssimas, em face desses desvarios do crédito?

Não veem – como veem até as famigeradas e incompetentes agências de riscos – que não podem ser saudáveis, no médio prazo, bancos que operam no limite da marginalidade financeira, cobrando estas taxas cavalares de risco (sic) dos tomadores de seus recursos?

Só têm a rentabilidade que dobra o patrimônio a cada três anos, porque há transferência liquida de riqueza, via governo, para os seus acionistas.

Não há inflação de demanda e aí estão os baixos resultados dos Black Fridays e outras macaquices clonadas – que mal ajudam a empanar a continuidade da majoração dos custos de produção e operação (energia, tarifas de toda a ordem, remarcação de impostos antes desonerados e outras correções de custos), que atestam que já estamos de há muito no ramo inelástico da curva de juros.
Insistir na leviandade do diagnóstico equivocado e do remédio que mata, só mesmo para quem está a mandato de outros interesses que não sejam realmente os do país.

Por outro lado, o governo assiste a tudo impávido e inerte: despreza o valor dos Direitos emergentes de Concessão (DEC) que transfere nos leilões de concessão sem usar a prerrogativa de conceder poder liberatório aos detentores dos seus papéis da dívida pública, para arrematar lotes de concessão de energia, estradas ou aqueles previstos no PIL 02 e assemelhados.

Médios empreendedores (capexistas e opexistas) continuam à margem dessas operações – que parecem fadados a ser uma “reserva de mercado” para grandes empreendedores do país (se e os que ganharem a leniência jurídica) e do exterior –, quando poderiam estar sendo contratados por SPE de Fundos de Investimento interessados na TIR Real das concessões, por certo muito mais saudáveis e consistentes (porque ancorados no lastro dos ativos formados pelos contratos de concessão) do que o rentismo estéril dos papéis do governo, com um TIR Real muito menor.

A segurança destes rentistas?

A ilusão de que nunca (jamais na história desse país) o governo deixou à míngua os donos de capital.

E é verdade mesmo: no Plano Cruzado, o valor nominal das ORTNS de então levou 90 dias depois de 28 de fevereiro de 1986, para ser prefixado em valor (R$ 105,40) acima do custo de carregamento das carteiras de títulos do governo: houvesse ISONOMIA de procedimentos com os demais ativos financeiros desindexados, o valor ficaria abaixo do custo de carregamento e pouco bancos privados (e quase nenhum estatal) teria ficado com o Patrimônio Líquido positivo!

Depois de esta mesma estultice ter sido internacionalizada na crise de 2008 pelos presidentes de BC do mundo – que pagam até hoje e pagarão ainda por muito tempo por tal sandice – à revelia do mercado real de ativos tangíveis –, se há alguém que se sinta protegido quando se paga de juro anual o equivalente a quase 10% do PIB de um país eu se está aprofundando em recessão…
Só se está se postando em uma nova rodada de concessões e privatizações com o uso de moedas podres logo à frente…

Abrevie-se o caminho: converta-se até R$ 1,2 trilhão do estoque de R$ 2,6 trilhões de dívida bruta, em moedas de concessão para o PIL 02 e outros leilões do tipo!

Além de se “esterilizar” papel potencialmente podre, sem lastro, por DEC com lastro real das operações concessionadas, cortam-se as taxas de captação a 1/3 do nível atual (SELIC).

E há um novo ciclo de investimentos virtuoso na economia.

Ou continuamos doentes: agora, ou em 2018, 2019, 2020…