Para uma nova engenharia de mercado

Reportagem do Estadão fala sobre ISITEC e outras Universidades que criaram cursos que atendem a demandas das empresas, enfatizando características como liderança

Por: LUIZ FERNANDO TOLEDO E VICTOR VIEIRA – O ESTADO DE S. PAULO

Com demandas cada vez mais complexas do mercado, novas graduações de Engenharia tentam, desde o começo, sintonizar seus currículos com a realidade das empresas. Além de bom manejo com os números, a ideia é preparar futuros profissionais para desafios práticos. Empreendedorismo, habilidades interpessoais, inovação e liderança estão entre as palavras de ordem para esses cursos.

Um dos exemplos dessa renovação é o projeto do Insper, que iniciou em 2015 três graduações de Engenharia: Mecatrônica, Mecânica e Computação. A escola, com boa reputação na área de negócios, aproveitou uma experiência estrangeira para a nova empreitada. É inspirada no modelo da Olin College, universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, referência internacional de ensino nesse setor.

Segundo Irineu Gianesi, coordenador de Engenharia no Insper, o objetivo é formar profissionais proativos e completos. “O engenheiro, muitas vezes, sabe resolver problemas já formulados. Mas, quando vai trabalhar, eles não estão dados. É preciso identificar os problemas”, explica.

Para desenvolver essa percepção, entra o empreendedorismo. “A ideia é levar para o mercado e transformar a realidade”, afirma Gianesi. Competências não técnicas, como liderança, responsabilidade social e comunicação, serão valorizadas em classe.
A mão na massa faz parte do cotidiano do curso, com aprendizagem por projetos. “Toda aula os professores pedem para a gente formar um grupo e resolver a atividade. Não é apenas na teoria, resolvemos a questão na prática”, conta o aluno de Engenharia de Computação João Pedro Castro, de 22 anos.

O rapaz, que estudou Engenharia em uma faculdade pública por três anos, trocou de escola em busca da proposta inovadora. Não se arrepende. “É outro tipo de metodologia. As faculdades, geralmente, são muito teóricas. Isso não funciona para mim”, comenta. A previsão é que a oferta de vagas nas engenharias do Insper, hoje em 90, já aumente no próximo vestibular.

INSPIRAÇÃO
A experiência da Olin College também ajudou na criação da carreira de Engenharia de Inovação, oferecida pelo Instituto Superior de Inovação e Tecnologia a partir deste ano. O curso, primeiro no País com essa classificação, nasce como uma encomenda do próprio mercado.

A graduação é mantida pelo Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (Seesp), com apoio da Federação Nacional dos Engenheiros. As entidades identificam no mercado o déficit de profissionais com competência para inovar. A aposta também é em habilidades multidisciplinares, como gerenciamento e empreendedorismo. “Será voltado para a empresa, a indústria, e não para a academia”, afirma o presidente do Seesp, Murilo Pinheiro. O aprendizado pela resolução de problemas, com mesas redondas de alunos e professores, é um dos principais formatos de aulas.

PROJETOS INOVADORES
Por ser uma formação generalista, a ideia é que o futuro profissional seja capaz de criar projetos inovadores em qualquer área. Com isso, a graduação estreante também atrai jovens indecisos. “Entrei no curso justamente porque ainda não sei qual área seguir. Eles dão base para uma nova engenharia de mercado em várias engenharias”, explica o aluno Phelipe Mendes, de 17 anos.

Para ele, essa formação múltipla ajuda a criar profissionais mais independentes, que consigam resolver problemas sozinhos. “Há vários tipos de matérias, como mecânica, aerodinâmica e computação. Mesmo quem já fez Engenharia em outros lugares acha coisas diferentes”, diz. O curso também promete, para antecipar o contato com o mercado, forte incentivo aos estágios.

Se hoje os cursos já nascem com cara nova, os ingressantes nas engenharias também chegam com visões distintas do passado. O anseio empreendedor é uma das diferenças desta geração. “Quero trabalhar em uma grande empresa, aprender lá e depois montar meu próprio negócio”, afirma Thiago Augusto Carneiro, aluno do segundo ano de Engenharia Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), curso iniciado em 2013.

A preocupação com demandas do mercado também guiou a criação dessa carreira, no câmpus de Araraquara, e de outras sete engenharias na Unesp nos últimos dois anos. “Os professores trazem a abordagem que vamos encontrar lá fora”, elogia Carneiro, de 20 anos. Outra graduação da área, provavelmente especializada em Aeronáutica, está prevista para começar em 2016.

CURRÍCULO FLEXÍVEL
O empreendedorismo, um dos interesses de Carneiro, está no currículo. É uma disciplina optativa de laboratório, com alunos da graduação e da pós. “A matriz curricular flexível permite tudo isso”, afirma Ossamu Hojo, coordenador do curso. “O aluno pode escolher de acordo com seu perfil”, explica.

Outra prioridade é aproveitar a vocação econômica regional das cidades onde estão os cursos, todos no interior de São Paulo. No caso de Araraquara, por exemplo, o foco são técnicas sustentáveis para a produção sucroalcooleira. “Estamos conectados com as demandas. Não só em relação a conteúdo, mas também com a lógica do mercado”, afirma Hojo.
 

POLIUSP E ITA TAMBÉM RENOVAM
Cursos tradicionais de Engenharia também têm feito ajustes para incorporar demandas do mercado. Um exemplo é o da Escola Politécnica, da Universidade de São Paulo (USP), que teve seu currículo renovado a partir de 2014. A aposta foi em uma formação mais generalista, que facilita o trânsito dos alunos em diversas subáreas. Já o Instituto Tecnológico Aeronáutico (ITA), em São José dos Campos, começou a reestruturar em 2013 seis cursos de Engenharia. Como em escolas estrangeiras de ponta, a ideia foi reduzir a carga horária obrigatória, o que possibilita a participação em outras atividades acadêmicas.
 

Fonte: Estadão